segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Às horas, por favor!

É, uma hora as coisas começam. Uma hora o começo das coisas começam. Pode-se, quase sempre, notar que quando começam é porque já era hora mesmo... de começarem. Ou então daria-se uma certa ajuda, um incentivo, um apoio, um grito, um push. E foi assim que comecei a escrever aqui. Foi assim que olhei a hora e vi que era aquela tal hora em que o começo das coisas começam. Ninguém gritou, não. Nem incentivo, nem apoio. Talvez ecoasse somente o "push! push! push!" dentro de mim e mesmo assim, ecoava bem baixinho, porque àquela hora não devia-se fazer barulho por aí afora.
Era quase hora do fim do mundo. O fim de um mundo de horas, quando então já não serviriam pra mais nada. Seria a hora de dizer que a hora delas havia chegado. Foi aí, nesse clima de quase velório, que comecei a escrever.
Nada seria mais educado do que dedicar a elas, as horas, esse meu primeiro esboço de letras agrupadas rumo ao infinito.
Lembrei-me de cada uma delas. Notei que muitas, muitas mesmo, foram desperdiçadas com afazeres nada agradáveis, com lamúrias e descrenças. Foram horas vazias. Sorte não existiram só dessas, ah não mesmo. Umas outras foram quase amordaçadas, sequestradas, trancafiadas numa caixa escura e surda, pra que não pudessem ser vistas, nem ouvidas, nem notadas enquanto emanavam o suave odor da felicidade. Aí sim elas valiam muito. Cada segundinho valia como primeiro. E sorte de quem conseguisse fazê-las ficarem quietinhas... xiu xiu! Ainda com minhas lembranças, pude concluir que algumas foram como um nevoeiro, que não nos deixavam ver o que tinha logo ali, mais adiante. Essas horas eram chamadas de impaciência mas nenhuma luz ou vendaval conseguia dissipá-las. Só mesmo as outras, as chamadas horas-da-verdade é conseguiam ser mais fortes que as impacientes e quando a batalhava entre elas terminava todas as outras horas vinham-se juntar à festa. Horas boas ou horas más, tanto faz. Nunca vinham em grupinhos de igual proporção. Sempre tinha uma turminha mais exaltada que saía por aí fazendo estardalhaço.
Todas elas, cada uma delas teve o seu propósito na vida. Ensinar, talvez tenha sido o propósito comum. Embora muitas não tenham alcançado com mérito o seu grande objetivo, sei que foram esforçadas e deram a própria vida nessa luta.
Agora, às vésperas de festejarmos o triste fim da novena de quaresmas, eu quero dizer que festejo não só o fim do mundo, mas também o início do INFINITO. Quero que todas as horas do mundo saibam que serão, ao menos por mim, vividas com a esperança equilibrista de conseguir aprender com cada uma delas a sonhar e perceber que a estrada vai muito, mas muito mesmo, além do que se vê...