quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

As vitrines

Elas continuam ali. Todos os dias, à noite eu as vejo. Exceto nos dias de chuva, é claro. Exceto nas noites de chuva, é claro também. Quando passo por ali à noite numa hora que antecede a hora da chuva, elas não estão. Nem se atrevem a estar. Têm um canal direto com a meteorologia. Ou São Pedro. Ou sentiram a brisa fresca. Talvez até sintam uma certa dorzinha no ciático, sei lá.

Também, elas nunca me diriam. Nunca! Como evitar a surpresa de um temporal no quengo. Aquele um do bão mesmo, que encharca a tanga, lava a alma e o cabelo, deixa transparecer o de baixo e nos faz dar aquela corrida besta, mesmo sabendo ser em vão.
E se algum dia todas elas se enganarem? E se nenhuma perceber que o toró vem aí? Será que já houve episódio assim na história delas? Acho que se houve, não sobrou uma que pudesse contar.
Também, elas nunca me contariam.

E como trabalham! Só de olhar, canso. É um vai e vem, digamos, frenético. Vai de mãos abanando, vem com um pedacinho da flor amarela que brota da árvore que fica bem em frente ao prédio vizinho. Desde novembro percebo essa movimentação. Sempre alerto o dog de que ali ele não pode se aliviar, "elas estão trabalhando". Até ele, à essa altura, já deve estar indignado com a jornada extensa de trabalho delas. Acho que se pudesse faria uma denúncia com um telefonema anônimo à sociedade protetora dos insetos.

Uma vez não as vi passando aqui em frente. Não era uma daquelas horas que antecede a chuva, no meu simplório entendimento. Estranhei. Mais uns passos e lá estavam elas. Dessa vez eram pedacinhos de flores roxas, que brotam da árvore em frente ao outro prédio vizinho. E é pro jardim desse prédio que elas carregam tudo. Sei porque já as seguí até lá.


Fico imaginando como será lá dentro. Lá na despensa delas. É tudo catalogado usando o sistema PAPS (primeiro que entra, primeiro que sai)? É tudo misturado numa baderna só? Quando afinal cessam esse vai e vem e se dão por satisfeitas com o estoque adquirido? Quem tem direito de comer primeiro? O quinhão é igual pra todas elas? Será que algumas enrolam o serviço? Digo, fazem corpo mole pra carregar as pétalas? Sim, pq eu vejo pétalas enormes passando e logo atrás uma bem pequenininha. Não tem nem vergonha essa dananda, deveria ir bem depois da mais trabalhadora pra não ser notada como "a preguiçosa". Vai ver ela tem algum atestado de incapacidade física para executar determnadas tarefas, mas mesmo assim quer ajudar o grupo. Ou vai ver essa preguiçosa apanha das outras quando chega lá com esse tequinho de nada de flor.

Também, elas nunca me confessariam.
Nunca elucidariam nehuma das minhas dúvidas. Nem as minhas e nem as do dog. Somo indiferenstes pra elas. De tanta labuta, não conseguem prestar atenção em quem sempre presta atenção nelas.

"Passas sem ver teu vigia, catando a poesia q entornas no chão"
Será sempre assim?

E mesmo depois de tudo isso, continuo fã incondicional da cigarra... que canta!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Confesso que chorei

As cores já não são as mesmas, o que até entristece um pouco as coisas. Acho que porque passaram-se muitos anos desde que as vi pela última vez no contexto das tais coisas e dessa forma pude notar a extrema mudança que lhes ocorreu. Outra possibilidade é a de que elas nunca tenham sido realmente as cores que eu imaginava que fossem. Possibilidade remota, mas ainda assim existente.
Eu as enxergava vivas. Eram muitas. Eram cores. Não eram fortes, apenas vivas. Emprestavam vida às coisas as quais me refiro. E por sua vez, cada um, além de carregar esses pedacinhos de vida consigo, carregava também outras cores, miscíveis entre sí e entre sí e o meio. Aquareláveis, creio.
A alegria visual era contagiante. Mesmo em silêncio elas já se pronunciavam e o lema era divertir. Ah, e como faziam isso bem... Tudo era colorido, vivo, divertido e inebriante ao mesmo tempo.
Hoje eu notei que ninguém mais presta atenção às cores. Quem viu, finge que esqueceu. Não liga. Faz de conta que não existe diferença. Essas novas cores agora são apenas um lixo a mais pelo chão. Quem não conheceu as outras, as vivas, até dá-se por satisfeito com essas novas. São quase mortas, quase cinzas. Não precisam esperar pela quarta-feira.
Quem não conheceu as outras tem a sorte ou o azar de nunca entender o significado de um pedacinho colorido de saudade...

Sonhar?

Cadê o sono? E as regras, cadê? A obrigação? A chateação, o zum zum zum, os contra-argumentos? Por onde foram esses tais?
Foram por aí, ao sabor do vento, do acaso ou até mesmo foram por seguir suas vontades íntimas, secretas. Ouvindo somente o que lhes acrescenta e sem o peso de ter resposta pra tudo o tempo todo. Devem estar felizes, imagino. Talvez caminhem juntos. Talvez não... Sempre deve existir o tempo para a auto-degustação. A auto-análise. O amor próprio, propriamente dito!
E enquanto todos estão longe, dando suas voltinhas relaxantes percebemos o doce sabor da liberdade.
E tendo assim, tanta liberdade todo dia e o dia todo, ele, o dia, passa a ser mais corrido. Explico: são tantas as possibilidades de aproveitamento da liberdade que acabamos não dando conta de tudo. Puxa! Que pena... Ainda bem que o sono também debandou pros lados de lá... Que ajuda e tanto essa dele.
Temer, tememos. O pior sempre está por vir, dizem as más línguas em várias línguas por aí.
O que nos resta então?
Afinal a lição já sabemos de cor...