quarta-feira, 31 de março de 2010

Malandragem

Já era a hora de brincar. Já havia terminado seus afazeres. Seu dever de casa e seu dever escolar. Sim, os dois. Eram diversos um do outro.
O dever de casa se resumia em cuidar da casa. Dar uma arrumadinha aqui, uma tapeada ali, esconder uma bagunça acolá e por fim soltar a reclamação diária que indica que o dever de casa terminou. Reclamação de cunho comunista, me parecia.
Já o dever escolar é qualquer outro dever que se traga de alguma escola. Escola do que quer que seja. No seu caso o dever escolar era soprar. Soprar, soprar e soprar contra a parede um pequeno pedaço de papel de modo a não deixá-lo cair. Ufa! Sim, parecia cansativo, mas ela o executava e dessa vez suas reclamações não reverberavam por aí. Só ela mesmo podia ouví-las, pois eram ditas apenas lá dentro da cachola, afinal a boca estava muito ocupada em manter o papel encostado à parede. E lá dentro da cachola ecoava também a voz do mestre a repetir que era preciso melhorar aquelo fôlego. Fffffuuuuuu.......... fffuuu...ffuuuuuuuuu
Bem, terminado tudo isso ela viu que agora sim era a hora de começar a brincadeira.
Correu pra sua máquina de sonhos. Ahhh, como era linda! Sentou-se frente a ela. Ligou-a. Aquela luzinha, quando acesa, lhe trazia um bem estar que era inexplicável para outras que não brincavam com máquinas de sonhos. Era como se cada vez que ela acendesse aquela luzinha, suas idéias fossem iluminadas e os sonhos, então, fabricados. Afinal, era uma máquina de sonhos, oras.
Pegou os ingedientes e espalhou-os pela mesa, ao lado da máquina. Não eram menos lindos do que a máquina ou do que os sonhos. Coloriam tudo por ali. Cada montinho de cores arrancava de seu rosto um sorriso. E então ela escolhia cores, escolhia tamanhos, escolhia posições. Escolhia várias vezes. Escolhia de novo e de novo, até achar aquela que seria a mistura ideal para um sonho lindo.
Depois de escolhido, ela se punha a juntar tudo e agora usava a máquina para isso. Era o pé no pedal e ela trabalhava. E era aquela cantoria. Dela, da máquina, da música ao fundo e até, por vezes, do cachorro.
Havia também sobre a mesa a peça chave que desencadeara toda a brincadeira. A linda inspiradora de tantas idéias e sonhos. Ela permanecia ali, caladinha e cabeçuda. Não cantava. Apenas observava tudo com seu típico grande olhar de soslaio. Sabia que no fim da cantoria a grande agraciada com o delicioso sonho colorido seria ela mesma. Sentia-se feliz por ser tão zelada e amada pela dona da tal máquina.
Quando enfim a máquina cessava a cantoria e sua luz era apagada, chegava o momento mais esperado de todos: a prova do sonho!
Podia-se sentir a adrenalina varrendo o corpo de ambas. A grande, que comandara a máquina, pegava então a pequenina cabeçuda de cima da mesa com carinho e entregava-lhe o sonho. Prontinho! Colorido. Cheirando a novo. E a pequena, embora quieta, agradecia, à sua maneira, e o aceitava. E o sonho novo lhe caía tão bem. Como uma luva.
Então a brincadeira continuava. Uniam-se os sonhos, preparados em outras ocasiões, com o sonho novinho em folha. E se davam muito bem.
Quando as duas, grandona e pequenina, exauriam-se de tanto trocar de sonhos e fotografá-los, iam descansar. E então só pensavam em uma única coisa. Sonhar um sonho bem lindo pro dia seguinte.
A maior sempre dormia antes e assim que pegava no sono, sonhava... em ser também uma bonequinha cabeçuda e vestir-se de sonhos por toda a vida...

"...Quem sabe a vida é não sonhar..."

2 comentários:

  1. eh... meio dificil neh? viver e nao sonhar, sera tem como? quem sabe a vida eh nao viver? vixi rs

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